
Antônio Crespo era um velho muito sábio. Avançado em anos, com larga experiência, fazia discretos comentários ou dava respostas judiciosas. Percebendo as manias das pessoas, observava: - “Cada um com sua cadaunada”. Certa vez, um jovem, não sem ironia, perguntou-lhe: - Os velhos estão mais próximos da morte? Na hora, ele retrucou: - Os velhos devem morrer, os jovens podem morrer.
O jovem saiu pensativo. Chegou a casa, abriu um jornal e leu uma reportagem sobre a droga e a violência. O articulista comentava que a enorme maioria dos que morriam vítimas do uso e do tráfico de drogas tinha menos de 30 anos. Portanto, jovens. A frase do velho Crespo bateu-lhe forte: “Os jovens podem morrer”.
Parou um instante a pensar. Por que eles se metiam nessa aventura louca com risco de vida? Começavam com um convite inocente de um colega. É só para experimentar. Mais uma vez, mais outra vez. E ei-los lentamente dependentes da droga que começava a minar-lhes o organismo. Motor novo, mas gasto: não pela corrida dos anos, como os velhos, mas pela aceleração abusiva dos entorpecentes.
Daí um passo para comprar, vender, ganhar dinheiro, comprar, vender. O tráfico já os envolvia. A situação se modificara. O risco crescera. Já não estavam só com colegas e amigos, mas se imiscuíam com criminosos, com contraventores de peso. Punham-se a poucos metros da morte. “Os jovens podem morrer”.
A leitura do jornal, interrompida pelo vôo da fantasia, foi retomada. A curiosidade açulava-lhe a procura do tema dos jovens. Mais notícias ainda. Agora vinha do Pronto Socorro João XXIII de Belo Horizonte. O traumatologista do Hospital fora entrevistado. O jornalista curioseava a respeito das vítimas que mais abundavam na seção dos acidentados. Mais uma vez, a maioria eram jovens. Ele dizia que muitos velhos caíam e quebravam algum osso, mas os casos graves predominavam entre os jovens. E mais. Muitos eram casos fatais. Vinham em estado tão grave que morriam ou no caminho ou logo no hospital, sem falar daqueles que ficaram mortos no próprio acidente.
E o jornalista avançava as perguntas. Que tipo de ferimentos? Em acidentes de moto e vítimas de arma de fogo. Dois tipos de violência. Na maioria das vezes provocada pela própria vítima, quer envolvendo-se em rixas perigosas, quer aventurando-se em moto pelo tráfego. Mais uma vez, soou-lhe pesada a frase do velho Crespo. “Os jovens podem morrer”.
Esse percurso interior do jovem e com o jovem não lhe afeta unicamente. Naturalmente, o jovem é o primeiro e mais interessado nessas duas reportagens. Ele é a vítima principal da violência da droga, das armas de fogo, dos acidentes, principalmente de moto. No fim dessa linha reta está a morte. E morte “antes de tempo”, muito “antes de tempo”, como dizia Bartolomeu de las Casas a respeito do genocídio dos índios.
Feito para a vida, ressudando vida por todos os poros, de repente se vê coberto com o véu triste da morte. Deixa atrás de si um rastro de dor, de sofrimento, de saudade, de silêncio.
Freqüentemente pinta a pergunta: e Deus em tudo isso? Numa das homilias, repeti várias vezes a frase: “Os braços de Deus são os nossos braços”. E apontava para uma jovem mãe com seu bebê no braço. E se ela deixar a criança cair ao solo e correr o risco de matá-la? Que faria Deus? Sofreria com a mãe, mas não estenderia seus braços invisíveis para segurar a criança. Porque os braços dEle eram os da mãe e estes falharam. Enorme responsabilidade daquela mãe!
Quando são somente os braços físicos, é fácil entender. Ninguém imagina, por mais ingênuo que seja, que Deus vá segurar no ar uma moto numa curva em alta velocidade, nem vá cobrir a cabeça de um jovem sem capacete, nem deter-lhe a máquina nalguma proeza. As mãos de Deus somos todos nós, começando pela imagens televisivas. Essas, quantas vezes, incentivam a agressividade e impetuosidade juvenil a lançar-se a um esporte pura adrenalina! Depois a TV se apaga. O acidente vem. A morte bate às portas do jovem. E quem chora? Quem lançou a imagem e provocou a loucura juvenil, ou a família que carrega o sofrimento por anos? E o colega que estimulou, mas na hora do luto, esconde-se? Ou talvez adultos irresponsáveis que esqueceram as leis básicas da física e fecharam os olhos aos desejos irrefletidos dos jovens?
Cabe a todos nós baixar essa onda estimuladora de aventura, de violência que envolve a juventude e a aproxima tanto da morte. Lembremo-nos do velho Crespo: “Os jovens podem morrer” e infelizmente morrem, e muitos, antes de tempo, vítimas de momentos de insana sensação.
J. B. Libânio
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